2015-04-16
Querer e poder
Pede-me o que quiseres e dar-te-ei o que puder.
Façamos tudo o que melhor nos aprouver.
Consensualmente unidos pelo prazer.
Ousemos sonhar sem que os transformemos em pesadelos.
De forma controlada, descontrolemo-nos.
2015-04-12
Por ti e/ou por mim
Nem sempre é fácil perceber a causa de um sentimento. Algumas vezes desejamos a uma pessoa especial, algo mais motivado por nós, do que por pensamentos e desejos puros sobre essa pessoa. E nem sempre é fácil descortinar onde começa o nosso desejo egoísta e onde acabam os votos sinceros do melhor para ela.
Dir-se-ia que não é fácil ter uma opinião desinteressada da situação. Esquecermo-nos de nós próprios e pensar exclusivamente no melhor para o(s) outro(s). Somos parte interessada. E desse interesse não nos desprendemos.
Quando alguém nos diz que será de uma maneira e não da que desejamos, muitas vezes, dependendo do tamanho do desejo, acabamos por arranjar interpretações divergentes. Mesmo quando a situação é posta de forma clara e sem ambiguidades, procuramos discursos escondidos que satisfaçam o nosso desejo. Queremos tornear a realidade de maneira a encaixá-la no projecto que a nossa mente projectou, contra a própria realidade. E, por mais forte que o desejo possa ser, nada supera a realidade. Podemos e devemos tentar moldá-la. Mas nada podemos fazer se o desejo do outro entrar em rota de colisão com o nosso. Nada, talvez seja um exagero. Afinal somos livres de projectar a nossa participação, mesmo acabando por não ser convidados para a execução...
2015-04-06
Por fim, enfim, o fim novamente
A inevitabilidade do fim, não deve intrometer-se no desfrutar do presente. Sob pena de antecipar o primeiro, ao destruir o segundo.
Por mais anticorpos que se criem, não podemos permitir-nos a que destruam qualquer possibilidade de novo lampejo de felicidade. Felicidade que por mais efémera que possa ser, tudo merece e tudo faz por merecer.
O(s) outro(s) não podem partir com uma desvantagem tão grande como a que os antecedentes semearam. Devemos ser-lhes leais e permitir-lhes o benefício da dúvida. E ele(s) agradece(m) a todos os precedentes pelo presente que deixaram, ao partirem para o passado.
Um ciclo fecha-se, dando espaço e tempo para que outro se abra. Não interessa com quem. Interessa isso sim que se parta de espírito aberto às novas possibilidades. O quando, o quem, o como, o porquê, o quanto, irão respondidas a pouco e pouco. Ainda que nunca de forma definitiva. Definitiva apenas enquanto durar. E enquanto durar, é o tempo bastante para amar.
E quando o fim chegar, esse marco inevitável, saberemos o que fizemos. E ficaremos tanto mais felizes quanto mais de nós tivermos investido. Pois só o investimento produtivo gera lucro. Lucro que torna o futuro mais auspicioso.
E quando o fim, por fim, for mesmo o último dos finais, é importante que tenhamos vivido o mais felizes possível até aí.
2015-04-05
Páscoa
E se, por capricho de uma sucessão de eventos, formos repentinamente confrontados com uma (boa) parte do nosso passado. Estaremos prontos para com ele fazer as pazes?
A renovação tem que ser compatível com o passado. Apesar da história tender a repetir-se, usualmente não se repete com os mesmos intervenientes. Mas ajuda ao desenvolvimento, perceber quais os erros cometidos e como evitar repeti-los.
Parece ser de implementação fácil, mas na realidade, e em especial no domínio sentimental, a razão pode ficar com uma visão demasiado turva. Especialmente se os eventos forem recentes. E a fulanização em nada ajuda a uma análise correcta.
Quando a relação com o passado está arrumada e em paz, menos perturbações são expectáveis no futuro. Ainda assim alguma atenção deve ser dada à análise dos erros. Em descobrir as suas causas verdadeiras e não se ficar apenas pelas aparentes. As acções preventivas são preferíveis às correctivas. Destas as mais difíceis são as que vão contra o sujeito que as tenta implementar. Seja quais forem as razões, o sujeito tende a agir da mesma forma perante situações semelhantes. Por muito monótono que isso possa parecer, a aleatoriedade não é propriamente uma característica humana. E é o modo de agir que urge alterar. Isto tratando-se de um erro, claro está. No que está certo, muda-se menos.
A Quaresma, como qualquer outro período de preparação, é essencial para melhor preparar a tal passagem necessária.
Aquela que nos salvará dos erros passados. Isto se houver salvação...
2015-03-17
Súbito óbito
As relações não morrem subitamente. Vão morrendo lentamente às mãos dos intervenientes. Tal como os cigarros não matam imediatamente o fumador, são os pensamentos, palavras, actos e omissões dos cúmplices culpados, que o levam à agonia final. E não é preciso que fumem vários maços por dia. Basta-lhes deixar a dose venenosa subir lentamente ao longo do tempo. Não fazendo desintoxicações regulares, o veneno acumula-se e provoca sintomas. Os quais podem ser ignorados ou observados, desde que ao outro imputados.
A não aceitação do outro tal como ele é, é um veneno poderoso. Ainda que administrado em pequenas quantidades, acaba por ter um resultado inexorável, a longo prazo. Ao contrário de uma dose elevada logo no início, que impossibilite sequer o início da ligação.
A culpa arrisca-se a ser a única a não morrer solteira, independentemente da opinião dos participantes tentarem casá-la com o outro. Com o oponente. E essa divergência pode tornar-se central.
No final, alguém tem que atestar o óbito.
2015-03-12
Curioso desinteresse
Ergues-me com o teu pensamento. Prostras-me com o teu desinteresse. O vazio enche-se com a tua ausência. A liberdade da solidão regressa carregada de nada. E isso traz tudo à memória. Esquecendo o mau e recusando lembrar o bom. Assim é o limbo libertador, recusando o passo em frente. Tolhe o movimento da mudança. Mantém a inércia dos sentimentos. A curiosidade espreita o caminho do outro, sabendo que não o partilhará mais. Desejando aquilo que não mais possui, despojando-se de todo o desejo, cai por terra, desinteressado. E na primeira oportunidade, agarra-a com ambas as mãos, e por momentos tudo é só paixão.
2015-02-27
Infantilidade política
Muito se tem falado sobre as declarações do líder da oposição, as quais, como líder da oposição, neste país, só poderiam ser de «denegrição» do trabalho dos governantes. Por outro lado, os apoiantes da governação entoam um coro de gozo com as referidas palavras. E nem os apoiantes do primeiro, nem os apoiantes dos segundos, parecem perceber o ridículo da situação.
A oposição não deve ser feita apenas pela negativa, tentando passar por negativo da governação. E a governação deveria ter mais motivos de regozijo do que apontar aparentes contradições na oposição. Ninguém parece ver que este acentuar da negativa impede qualquer solução razoável para os verdadeiros problemas. E cada vez mais faz ver que não vale a pena haver centenas de deputados se apenas servem como coro dos respectivos líderes, sem qualquer sentido crítico. Para câmaras de ressonância ocas, já bastam os aparelhos dos partidos.
2015-02-18
(Des)amar(rar)
Não consegui libertar-te das amarras.
Provavelmente porque não me desamarrei.
Ou talvez por impossível ser.
As amarras de ti fazem parte.
Cortá-las seria castrar-te.
Pedaços de ti perderias.
Não mais inteira serias.
Mesmo quando te sentes
por elas oprimida,
não poderás ceder.
Ainda que desapoiada,
acabas por prevalecer.
Por o desânimo vencer.
Perdoa por não te ter animado.
Por não estar ao teu lado, amarrado.
Pois por ti e contigo estava amarrado.
E quando me libertei, não te ter levado.
Para onde? Não sei, mas para algum outro lado.
Provavelmente porque não me desamarrei.
Ou talvez por impossível ser.
As amarras de ti fazem parte.
Cortá-las seria castrar-te.
Pedaços de ti perderias.
Não mais inteira serias.
Mesmo quando te sentes
por elas oprimida,
não poderás ceder.
Ainda que desapoiada,
acabas por prevalecer.
Por o desânimo vencer.
Perdoa por não te ter animado.
Por não estar ao teu lado, amarrado.
Pois por ti e contigo estava amarrado.
E quando me libertei, não te ter levado.
Para onde? Não sei, mas para algum outro lado.
2015-02-15
Provicianismo sexual
Com entradas a 14 € (individual) e 24 € (para casal) e num fim de semana de Carnaval e com o dia de S. Valentim a juntar-se à festa, realizou-se mais um festival erótico em Lisboa. Não desejo que tenha sido um fracasso, mas aborrece-me ouvir banalidades provincianas sobre supostos visitantes provincianos.
Não sei se, talvez levados por emoções sadomasoquistas, ouvi numa reportagem tanto expositores/artistas e visitantes a queixarem-se que os portugueses são muito inibidos e têm muitos tabus. Parecem ver muito e comprar pouco. Não têm particular interesse em comprar brinquedos sexuais ou em participar nos espectáculos, nem que seja apenas como público entusiasta.
Pela cabeça destes comentadores parciais não passou que a vida económica não está particularmente fácil. E os preços não parecem ser particularmente acessíveis (a somar ao preço da entrada, há que acrescentar os preços dos espectáculos privados e dos objectos e roupas à venda no certame).
Também não passou que os portugueses não sejam grandes adeptos deste estilo de sexo. Como se ao sexo fossem imprescindíveis o uso de brinquedos e de conjuntos de fantasia. E, talvez acima de tudo, transformar um acto privado numa actividade pública.
Não sei se intoxicados pelas 50 tonalidades cinzentas, vêem a vida sexual portuguesa como pouco colorida. E talvez até seja conservadora, tal como eu. Mas não consigo ver nisso uma vida sexual insatisfatória. Pelo contrário. Até consigo ver na necessidade do uso de brinquedos e conjuntos de fantasia como uma forma de tentar tornar satisfatória uma vida que não o é.
2015-02-14
Nem namorado, nem encalhado
Neste mundo cada vez mais globalizado e, consequentemente, mais massificado, a pressão dos pares sobre os ímpares é grande. E muitos ímpares tentam libertar-se, devolvendo a pressão sobre os pares. Na realidade acabam por pressionar muito mais os seus pares do que os outros. E embarcam em reacções, tais cães de Pavlov, após sentirem o estímulo.
Numa sociedade onde vale cada vez mais o ter do que o ser, o apelo ao consumo é quase esmagador. E qualquer dia pode funcionar como uma boa desculpa para apelar ao consumo, de forma mais ou menos despudorada. E podendo vender aos pares, os apelos valem a dobrar.
Não sendo auto-suficientes, trocamos o nosso pão-por-Deus pela travessura ou gostosura. Curiosamente, até trocamos a própria língua.
Importamos necessidades e esquecemos tradições numa evolução em direcção à alienação.
Compramos o apaziguamento para um dia, esperando que transborde para todos os outros.
E quem a este rebanho não se juntar, mais do que ovelha negra, mais ímpar irá ficar.
2014-11-03
O primeiro bandido
Não me estou a referir (apenas) ao Primeiro-Ministro. Nem a este nem aos precedentes.
O Estado Português, aquela entidade em quem não temos outro remédio a não ser confiar e obedecer, não é uma pessoa de bem. Não sei se com a desculpa de não ser uma pessoa individual, dificultando o apontar de dedo ao culpado mor, usa e abusa da nossa confiança.
Aproveita todos os subterfúgios para subtrair dinheiro aos contribuintes involuntários, ao mesmo tempo que gere de forma (quase) dolosa o tesouro público.
Consegue, recorrendo ao uso de ferramentas informáticas, simultaneamente aumentar a eficiência da máquina fiscal e recusar-se a actualizar avaliações do património imobiliário. Operação que, certamente, qualquer computador conseguiria calcular com facilidade, desde que apetrechado com o programa correcto.
Consegue, ao mesmo tempo que impõe um imposto automóvel exorbitante, calcular um imposto sobre o valor acrescentado que incide também sobre o dito imposto automóvel. Talvez entusiasmado com tamanho valor do primeiro, imputar ao comprador um valor acrescentado que reconhece com o segundo. Malabarismo ao qual recorre noutros impostos. Muitos dos quais que, todos somados, são superiores à outra parcela que paga o produto ou o serviço propriamente dito.
Incumbe outras entidades de cobrar taxas e outras contribuições, algumas aparentemente irrisórias, onde arrecada mais algum valor ao alargar ao máximo a base da contribuição.
Aproveitando o exemplo e para ser compensada por cortes nas transferências da administração central, a local cobra mais uma parafernália de taxas e outras contribuições, nem sempre contribuindo para a percepção do contribuinte que contribui para um bem maior.
Nalguns casos cobra desproporcionadamente por serviços que concessiona a terceiros por valores bem menores, sem apresentar qualquer valor acrescentado pela intermediação efectuada.
Administrativamente, com a cobertura do Estado, cobra tudo o que pode, dando o menos possível como retorno. Imitando perfeitamente o modus operandi do Estado central omnipotente e omnipresente no que toca a extorquir dinheiro aos contribuintes mais desprotegidos, eclipsando-se quando toca a exigir dinheiro aos mais poderosos.
Este estado de coisas envenena a confiança e a economia, acabando por dificultar a execução financeira que tanto presa e pela qual clama, enquanto tenta disfarçar a faceta de bandido agiota.
O Estado Português, aquela entidade em quem não temos outro remédio a não ser confiar e obedecer, não é uma pessoa de bem. Não sei se com a desculpa de não ser uma pessoa individual, dificultando o apontar de dedo ao culpado mor, usa e abusa da nossa confiança.
Aproveita todos os subterfúgios para subtrair dinheiro aos contribuintes involuntários, ao mesmo tempo que gere de forma (quase) dolosa o tesouro público.
Consegue, recorrendo ao uso de ferramentas informáticas, simultaneamente aumentar a eficiência da máquina fiscal e recusar-se a actualizar avaliações do património imobiliário. Operação que, certamente, qualquer computador conseguiria calcular com facilidade, desde que apetrechado com o programa correcto.
Consegue, ao mesmo tempo que impõe um imposto automóvel exorbitante, calcular um imposto sobre o valor acrescentado que incide também sobre o dito imposto automóvel. Talvez entusiasmado com tamanho valor do primeiro, imputar ao comprador um valor acrescentado que reconhece com o segundo. Malabarismo ao qual recorre noutros impostos. Muitos dos quais que, todos somados, são superiores à outra parcela que paga o produto ou o serviço propriamente dito.
Incumbe outras entidades de cobrar taxas e outras contribuições, algumas aparentemente irrisórias, onde arrecada mais algum valor ao alargar ao máximo a base da contribuição.
Aproveitando o exemplo e para ser compensada por cortes nas transferências da administração central, a local cobra mais uma parafernália de taxas e outras contribuições, nem sempre contribuindo para a percepção do contribuinte que contribui para um bem maior.
Nalguns casos cobra desproporcionadamente por serviços que concessiona a terceiros por valores bem menores, sem apresentar qualquer valor acrescentado pela intermediação efectuada.
Administrativamente, com a cobertura do Estado, cobra tudo o que pode, dando o menos possível como retorno. Imitando perfeitamente o modus operandi do Estado central omnipotente e omnipresente no que toca a extorquir dinheiro aos contribuintes mais desprotegidos, eclipsando-se quando toca a exigir dinheiro aos mais poderosos.
Este estado de coisas envenena a confiança e a economia, acabando por dificultar a execução financeira que tanto presa e pela qual clama, enquanto tenta disfarçar a faceta de bandido agiota.
2014-09-28
Fracasso vocabular
Enquanto que para o fracasso alheio há sempre palavras que chegam e sobram para o caracterizar, normalmente para o meu são poucas. Ou nenhumas.
Mesmo que o fracasso não tenha dependido apenas de mim, a minha quota parte da culpa nunca fica solteira. Desculpar o meu fracasso com o fracasso alheio sempre me pareceu fraco. Muito fraco. E atribui-lo ao azar é aselhice.
Faltam-me adjectivos e desculpas. A falha fulanizada aponta imediatamente um culpado. Um culpado que é preciso punir, sem apelo nem agravo. E ao mesmo tempo sem qualquer julgamento justo.
A justiça, apesar de necessitar de rapidez se pretender ser justa, necessita de tempo para que haja distanciamento, uma vez que não se deve ser juiz em causa própria. E na própria causa a culpa ofusca qualquer razão.
Ainda que digam que o silêncio é preferível a proferir palavras sem sentido, mas como armas, para mim o silêncio não é de ouro. Ou ficaria rico após cada fracasso, motivando-me para projectar o próximo.
Entretanto, quando nada mais há para conversar, não há maior, e ao mesmo tempo mais justa, punição do que a ausência e respectivo silêncio.
Mesmo que o fracasso não tenha dependido apenas de mim, a minha quota parte da culpa nunca fica solteira. Desculpar o meu fracasso com o fracasso alheio sempre me pareceu fraco. Muito fraco. E atribui-lo ao azar é aselhice.
Faltam-me adjectivos e desculpas. A falha fulanizada aponta imediatamente um culpado. Um culpado que é preciso punir, sem apelo nem agravo. E ao mesmo tempo sem qualquer julgamento justo.
A justiça, apesar de necessitar de rapidez se pretender ser justa, necessita de tempo para que haja distanciamento, uma vez que não se deve ser juiz em causa própria. E na própria causa a culpa ofusca qualquer razão.
Ainda que digam que o silêncio é preferível a proferir palavras sem sentido, mas como armas, para mim o silêncio não é de ouro. Ou ficaria rico após cada fracasso, motivando-me para projectar o próximo.
Entretanto, quando nada mais há para conversar, não há maior, e ao mesmo tempo mais justa, punição do que a ausência e respectivo silêncio.
2014-09-13
O tempo mortal
O mortal que passa o tempo
A lamentar-se do tempo que faz,
Perde tempo, perde gás.
Esquece que o tempo
Não pára nem volta atrás.
Não quer ver que o tempo
Ignora a sua pequenez.
Ainda que de quando em vez
Lhe faça, por um momento,
Pensar que é grande o seu,
Ainda que por pouco tempo,
Reflexo que mira num espelho.
No mesmo que deforma
A realidade, que só ele vê.
Sempre novo, nunca velho,
O tempo que transforma
O cérebro que, ainda sendo seu,
Não comanda totalmente
E sobre a sua imagem mente.
E quando o seu tempo acabar
Quem perderá tempo a recordar?
A lamentar-se do tempo que faz,
Perde tempo, perde gás.
Esquece que o tempo
Não pára nem volta atrás.
Não quer ver que o tempo
Ignora a sua pequenez.
Ainda que de quando em vez
Lhe faça, por um momento,
Pensar que é grande o seu,
Ainda que por pouco tempo,
Reflexo que mira num espelho.
No mesmo que deforma
A realidade, que só ele vê.
Sempre novo, nunca velho,
O tempo que transforma
O cérebro que, ainda sendo seu,
Não comanda totalmente
E sobre a sua imagem mente.
E quando o seu tempo acabar
Quem perderá tempo a recordar?
2014-07-07
Nem príncipes, nem princesas
O absolutismo tendeu a passar de moda. Há muito que o quero, posso e mando entrou em desuso na relação dos progenitores e respectiva prole. Mas, sub-repticiamente e paulatinamente, começou a instalar-se seguindo o sentido inverso.
Na ânsia de querer tratar os descendentes como se de príncipes e de princesas se tratassem, os reis absolutos do antigamente, raramente contestados, abdicaram.
Talvez por não quererem fazer aos próprios filhos o que os seus próprios pais lhes fizeram, preferiram optar por uma educação mais participada. Compareceram como iguais perante os filhos, e acabaram como subalternos. Abdicaram do trono que sabiam não lhes pertencer e inadvertidamente nele colocaram os seus príncipes e suas princesas.
E ambos perderam a noção de quando os príncipes e as princesas passaram a reis e a rainhas.
Na ânsia de querer tratar os descendentes como se de príncipes e de princesas se tratassem, os reis absolutos do antigamente, raramente contestados, abdicaram.
Talvez por não quererem fazer aos próprios filhos o que os seus próprios pais lhes fizeram, preferiram optar por uma educação mais participada. Compareceram como iguais perante os filhos, e acabaram como subalternos. Abdicaram do trono que sabiam não lhes pertencer e inadvertidamente nele colocaram os seus príncipes e suas princesas.
E ambos perderam a noção de quando os príncipes e as princesas passaram a reis e a rainhas.
2014-01-02
Entro em ti
A novidade provoca excitação e ansiedade. A vontade cresce em cada momento. Motivando a exploração do sentimento. Este floresce sem qualquer consentimento. E quando tomamos conhecimento, tarda o encontro. Tarda o momento. Em que entro em ti, por não mais caber em mim de tanto contentamento. E neste movimento, em que me atiro para dentro, saio de mim e entro em ti, nem que seja por pouco tempo...
2013-05-10
Plena aceleração
À partida agarramo-nos ao que pudermos. Com medo de cair. Alucinados com a vertigem, deliciados com a mudança de velocidade repentina. Esquecendo a inércia que nos mantinha no mesmo lugar. Esquecendo também que essa mesma inércia nos impedirá de parar imediatamente. Ainda que o queiramos. Ainda que nos apercebamos atempadamente que aquela direcção não é a correcta, a desaceleração também não será imediata. Seria quase imediata se encontrássemos na nossa trajectória um corpo com ainda maior inércia.
Esta perda de equilíbrio provoca uma excitação de difícil explicação. Esta mudança de velocidade estimula os sentidos e entorpece o raciocínio. Apenas o treino permite manter os reflexos céleres e eficazes.
Os eventuais acidentes deixam marcas inesquecíveis. Mas esquecemos isso, inebriados pela mudança de velocidade. Pela sensação de desastre eminente, ao mesmo tempo que não nos passa pela cabeça qualquer acidente. Que nos sentimos imortais nestes breves instantes. E acabamos por morrer lentamente, à medida que esta sensação nos abandona. Até à próxima.
Esta perda de equilíbrio provoca uma excitação de difícil explicação. Esta mudança de velocidade estimula os sentidos e entorpece o raciocínio. Apenas o treino permite manter os reflexos céleres e eficazes.
Os eventuais acidentes deixam marcas inesquecíveis. Mas esquecemos isso, inebriados pela mudança de velocidade. Pela sensação de desastre eminente, ao mesmo tempo que não nos passa pela cabeça qualquer acidente. Que nos sentimos imortais nestes breves instantes. E acabamos por morrer lentamente, à medida que esta sensação nos abandona. Até à próxima.
2013-03-12
Que fome!
"Podes vir para o pé de mim, que eu não te mordo" - disse-lhe ela
com um ar sorridente e num tom quase desafiante.
"É precisamente por isso que não me aproximo mais" - retorquiu-lhe ele, encolhendo os ombros, mantendo-se à mesma distância.
Os pensamentos dele afastaram-se daquele espaço e daquele tempo e embrenharam-se noutros. A sua expressão tornou-se sombria, deixando subentender que o mundo onde o seu cérebro estava, para além de distante, não seria muito agradável, nem iluminado.
"É precisamente por isso que não me aproximo mais" - retorquiu-lhe ele, encolhendo os ombros, mantendo-se à mesma distância.
Os pensamentos dele afastaram-se daquele espaço e daquele tempo e embrenharam-se noutros. A sua expressão tornou-se sombria, deixando subentender que o mundo onde o seu cérebro estava, para além de distante, não seria muito agradável, nem iluminado.
Lembrava-se de estar num espaço e num tempo onde o afastamento era nulo. Onde ambos estavam tão próximos que só a pele os mantinha afastados. Onde o toque da boca dela e dos respectivos dentes o tinham surpreendido. Onde as quase dolorosas marcas, sempre por ela negadas, eram exibidas com orgulho.
Num tempo que parecia ao mesmo tempo tão eterno e tão fugaz. Um espaço e um tempo tão afastados de si, cujo afastamento parecia tender para o infinito. Quase tão depressa quanto o seu sentimento. Sentimento que agora se aproximava de zero, contrariando toda a matemática e a lógica. Ou talvez tivesse sido a lógica contrariada desde o início. Desde aquele sistemático contestar e protelar da relação. Relação secreta, escondida. Quase inconfessável. Que muitos adivinhavam e tomavam como certa. E acertaram até certo ponto. Até ao ponto do não retorno. Um ponto que apesar de parecer de fuga apenas à vista, tinha sido de fuga inconsciente, mas definitiva. Onde a plasticidade da relação tinha sido levada longe demais, levada para lá do ponto de ruptura.
Durante meses os palavrões, as dentadas, os movimentos, os gemidos e o desejo não lhe tinham saído da cabeça. Martelavam-lhe o cérebro quase com o mesmo ritmo de passagem daqueles pensamentos recorrentes. Minuto a minuto, hora a hora, massacravam-no quase com a mesma intensidade dos momentos de prazer de que se recordava. E agora, nada.
"Estás cheio de fome?" - insistiu querendo ser agradavelmente simpática, enquanto olhava em redor para as mesas ainda repletas - "Eu tenho bastante".
"Tenho. Muita." - concluiu ele afastando-se para procurar algo onde ferrar os dentes.
Num tempo que parecia ao mesmo tempo tão eterno e tão fugaz. Um espaço e um tempo tão afastados de si, cujo afastamento parecia tender para o infinito. Quase tão depressa quanto o seu sentimento. Sentimento que agora se aproximava de zero, contrariando toda a matemática e a lógica. Ou talvez tivesse sido a lógica contrariada desde o início. Desde aquele sistemático contestar e protelar da relação. Relação secreta, escondida. Quase inconfessável. Que muitos adivinhavam e tomavam como certa. E acertaram até certo ponto. Até ao ponto do não retorno. Um ponto que apesar de parecer de fuga apenas à vista, tinha sido de fuga inconsciente, mas definitiva. Onde a plasticidade da relação tinha sido levada longe demais, levada para lá do ponto de ruptura.
Durante meses os palavrões, as dentadas, os movimentos, os gemidos e o desejo não lhe tinham saído da cabeça. Martelavam-lhe o cérebro quase com o mesmo ritmo de passagem daqueles pensamentos recorrentes. Minuto a minuto, hora a hora, massacravam-no quase com a mesma intensidade dos momentos de prazer de que se recordava. E agora, nada.
"Estás cheio de fome?" - insistiu querendo ser agradavelmente simpática, enquanto olhava em redor para as mesas ainda repletas - "Eu tenho bastante".
"Tenho. Muita." - concluiu ele afastando-se para procurar algo onde ferrar os dentes.
2013-03-03
Mau azeite
É do senso comum que a água e o azeite não se misturam. Já não será tanto desse senso explicar o porquê. Recorrendo à Química, ficamos a saber que as moléculas de água atraem-se umas às outras com mais intensidade do que atraem as moléculas do azeite (ou de outro óleo qualquer). A separação entre estas duas substâncias não ocorre por rejeição entre as moléculas de água e as do azeite. Aliás, as moléculas do azeite até se sentem bastante atraídas pelas da água. Mas só conseguem aproximar-se das que ficam na fronteira entre uma substância e a outra. Na aproximação que as moléculas da água fazem entre si, expulsam todas as moléculas do azeite para fora do seu grupo.
Por causa da densidade do azeite ser menor que a da água, o azeite tende a ficar por cima da água, apresentando duas fases distintas, como quaisquer dois bons líquidos imiscíveis. Este ficar por cima, nada tem a ver com o carácter de uma ou da outra substância. Apenas acontece com naturalidade, pela relação entre esta propriedade intrínseca de uma e de outra substância.
A natureza não faz distinção de modo subjectivo. Objectivamente, a massa da Terra atrai (e é atraída) com mais intensidade pelas substâncias cuja densidade é maior. Neste caso, atrai mais fortemente a água do que o azeite, deixando-o a flutuar sobre a água, que fica no fundo, mais próxima da Terra.
Por muito que o azeite quisesse, a água não admite misturas.
Por causa da densidade do azeite ser menor que a da água, o azeite tende a ficar por cima da água, apresentando duas fases distintas, como quaisquer dois bons líquidos imiscíveis. Este ficar por cima, nada tem a ver com o carácter de uma ou da outra substância. Apenas acontece com naturalidade, pela relação entre esta propriedade intrínseca de uma e de outra substância.
A natureza não faz distinção de modo subjectivo. Objectivamente, a massa da Terra atrai (e é atraída) com mais intensidade pelas substâncias cuja densidade é maior. Neste caso, atrai mais fortemente a água do que o azeite, deixando-o a flutuar sobre a água, que fica no fundo, mais próxima da Terra.
Por muito que o azeite quisesse, a água não admite misturas.
2013-02-13
Difícil conjugação
Eu decepcionei-te
Tu decepcionas-me
Ele decepcionar-te-á
Nós decepcionar-nos-íamos
Vós decepcionaste-vos
Eles decepcionam
Tu decepcionas-me
Ele decepcionar-te-á
Nós decepcionar-nos-íamos
Vós decepcionaste-vos
Eles decepcionam
2013-02-12
Fazes-me falta
Ainda mais neste tempo tão frio e cinzento, faz-me falta o regresso da tua Primavera.
O desassossego que provocavas com a tua presença, contrasta com o desassossego que a tua ausência provoca.
Apesar do que dizem, a necessidade de apaziguamento agudiza-se com o passar do tempo. Dizem que o tempo tudo cura, enquanto eu o vejo passear-se em câmara lenta. Enquanto sinto o meu coração cozer em lume brando.
Não somos estranhos um ao outro. Apenas estranhamos a alteração do sentimento forte que nutríamos um pelo outro.
Agora, fruto do desencanto e do afastamento, encaramo-lo de forma fugidia.
E neste estranho reconhecimento, conhecemos que nada volta atrás. Que nada volta a ser como era. Porque já nem nos lembramos exactamente como era. Apenas recordamos o que imaginamos que foi.
Os apetites outrora insaciáveis, ficaram saciados de um momento para o outro. É possível ver o instante em que a linha quebrou. Em que deixou de ser recta, de declive positivo, para passar a ser quebrada, ziguezagueando sem levar a lado algum.
A paixão ardente não se transformou no amor quente que ambos procurávamos um no outro. No amor quente que todos merecemos e necessitamos. Procuramo-lo e, quiçá, encontramo-lo noutro sujeito. Então tentamos não ser apenas um verbo de encher. Ou talvez sejamos, se ainda não estivermos definitivamente curados deste sentimento que jaz escondido nos nossos peitos. E não o revelamos. Nem o podemos revelar, ou deixaria de ser um segredo bem guardado. E muito menos o podemos confessar um ao outro, para não corrermos o risco de percorrer o mesmo calvário que nos trouxe até aqui.
Anonimamente confesso que o percorreria de bom grado, se caminhasses a meu lado e me ajudasses a levantar de cada vez que caísse. Nunca te empurraria, ainda que fosse capaz.
O desassossego que provocavas com a tua presença, contrasta com o desassossego que a tua ausência provoca.
Apesar do que dizem, a necessidade de apaziguamento agudiza-se com o passar do tempo. Dizem que o tempo tudo cura, enquanto eu o vejo passear-se em câmara lenta. Enquanto sinto o meu coração cozer em lume brando.
Não somos estranhos um ao outro. Apenas estranhamos a alteração do sentimento forte que nutríamos um pelo outro.
Agora, fruto do desencanto e do afastamento, encaramo-lo de forma fugidia.
E neste estranho reconhecimento, conhecemos que nada volta atrás. Que nada volta a ser como era. Porque já nem nos lembramos exactamente como era. Apenas recordamos o que imaginamos que foi.
Os apetites outrora insaciáveis, ficaram saciados de um momento para o outro. É possível ver o instante em que a linha quebrou. Em que deixou de ser recta, de declive positivo, para passar a ser quebrada, ziguezagueando sem levar a lado algum.
A paixão ardente não se transformou no amor quente que ambos procurávamos um no outro. No amor quente que todos merecemos e necessitamos. Procuramo-lo e, quiçá, encontramo-lo noutro sujeito. Então tentamos não ser apenas um verbo de encher. Ou talvez sejamos, se ainda não estivermos definitivamente curados deste sentimento que jaz escondido nos nossos peitos. E não o revelamos. Nem o podemos revelar, ou deixaria de ser um segredo bem guardado. E muito menos o podemos confessar um ao outro, para não corrermos o risco de percorrer o mesmo calvário que nos trouxe até aqui.
Anonimamente confesso que o percorreria de bom grado, se caminhasses a meu lado e me ajudasses a levantar de cada vez que caísse. Nunca te empurraria, ainda que fosse capaz.
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