2017-10-27
Como incendiários
Façam como os incendiários e aproveitem até ao final o tempo quente. Façam o que vos der mais prazer, gozando (com) a natureza.
Ou, utilizando um dizer popular, queimem os últimos cartuchos...
2017-10-21
Profissão: cliente
Ultimamente parece haver alguma histeria sobre a substituição do Homem pela Máquina, no que às tarefas diz respeito. Alguma apreensão é compreensível, mas é preciso compreender como chegámos até aqui. E a culpa não está toda no lado das máquinas, nem no lado das organizações que perseguem o lucro e exploram ao máximo o trabalho de outrem.
Nunca vi ninguém traçar linhas vermelhas, apesar de me sentir com vontade de traçar uma. A grande distribuição quer que eu me encarregue de pesar os produtos vendidos a granel, fazer a minha própria conta e pagamento. Já não bastava nos terem amestrado para irmos buscar os produtos ao armazém/estante, felizes por nos sentirmos independentes e com hipótese de escolha, completamente manietados por técnicas de vendas que não dominamos.
Esta tendência de que quem forneça um produto não inclua o serviço em que disponibiliza ao cliente o dito produto é velha e, com o advento da automação, agravou-se substancialmente. Naturalmente não defendo que tarefas repetitivas e sem qualquer valor acrescentado continuem a ser realizadas por pessoas. As centrais telefónicas de comutação automática e os elevadores cujos botões podem ser manobrados por qualquer pessoa são sinais de evolução sem qualquer lado negativo. Mas nas pessoas incluo, obviamente, o cliente.
A tendência do auto-serviço que induz o cliente a trabalhar, sem receber uma compensação por isso, apenas maximiza o lucro. São raras as gasolineiras onde o cliente não seja obrigado a pegar na pistola da bomba de abastecimento. Nas portagens, praticamente desapareceram os portageiros. Nalgumas auto-estradas até o próprio meio de pagamento deixou de contemplar todas as alternativas previstas na lei, como se a moeda do estado tivesse perdido valor naquele pedaço do seu próprio território. Há até quem alegremente pague mais por pratos em restaurantes em que dão ao cliente o privilégio de cozinhar parte da sua refeição.
E tal como na liberalização dos preços, se percebeu rapidamente que, todos correm a nivelá-los por cima, também na substituição dos funcionários pelos clientes se viu que o lucro não serve para remunerar quem paga a conta.
Na distribuição da energia eléctrica, e de outros serviços, há mais um serviço que o cliente tem que disponibilizar: a tele-contagem. Não fornecendo esse serviço, arrisca-se a flutuações no valor das facturas mensais e respectivos acertos, numa complexidade de valores estimados (bastante mal, muitas das vezes, diga-se de passagem) e respectivos acertos que só o fornecedor de energia parece compreender. Ele ou os seus computadores, cujo software parece favorecer sistematicamente o próprio. Sacar uns euros a uns milhões de utilizadores antecipadamente, deve aumentar o rendimento. Com a lei, obrigaram o fornecedor a ler a indicação dos contadores de seis em seis meses, o que para ele parece intervalo demasiado curto. Curiosamente a tele-contagem parece avançar em passo de caracol, apesar do colosso da empresa pública do estado chinês que domina a distribuição eléctrica em Portugal (os fanáticos das privatizações, permitiram uma nacionalização para um estado estrangeiro. Ou duas se contarmos com a REN, uma empresa ainda mais estratégica).
E agora, para o leitor não se habituar mal, acrescente mais alguns exemplos e tire conclusões…
2017-10-16
Demissões estatais
Há muito aprendemos, porque assim nos ensinaram, que o Estado é incapaz de gerir bem os dinheiros públicos. Ensino tão eficaz por parte das chefias como dos restantes trabalhadores. Gerir bem dá trabalho e pode acabar com o emprego. Daí até privatizar-se tudo e mais alguma coisa, foi um caminho longo, mas do qual ainda não se vê o final.
Agora teremos que aprender que o Estado não tem varinhas mágicas, para triturar os problemas. Com excepção da recolha de impostos aos mais vulneráveis, que tritura qualquer um. Se quereis as coisas bem feitas, fazei-as vós, que nós somos incapazes. E por muito que o ensino tenha evoluído e produzido melhores resultados, parecem haver gerações perdidas, que ficaram para trás.
Não há forma de impedir homicídios, assaltos, corrupção, etc. Talvez por isso menos investimento na justiça, na dissuasão e na prevenção. Idem para incêndios, cheias e terramotos. Os meios nunca são suficientes, sendo investidos sempre nos mesmos, com os resultados apenas dependendo da mercê da natureza. Isto, por ventura, não abrirá caminho a um qualquer pretenso salvador do Estado falido? Que a nossa fé no Estado não arda no meio de tanta incapacidade para navegar contra ventos contrários...
2017-09-13
Dantes é que era
Antigamente é que isto era bom. No meio do spam discutia-se tudo e coisa nenhuma. É uma das vantagens da experiência. Com o tempo percebemos onde vale a pena empregarmos o nosso tempo. Sempre com conta, peso e medida, porque nos lembramos de todo o tempo que fomos desperdiçando ao longo da vida.
Numa busca incessante pelo tempo que já passou, só perdemos tempo com nostalgias do estilo "no meu tempo é que era bom", esquecendo que o nosso tempo ainda não acabou...
(https://groups.google.com/forum/#!forum/pt.conversa)
2017-08-20
Veneno social
As chamadas redes sociais são um espelho da sociedade que as criou e as utiliza. Um espelho algo deformado que amplia alguns aspectos, em detrimento de outros. Não há animal algum que não se sinta ofendido por isto ou por aquilo que se encontra nas redes. E o mesmo animal, por isso, sente-se no direito de ofender, acreditando claramente que dois erros anulam-se ou criam algo de bom.
As figuras mais ou menos públicas ou não chegaram a embarcar nesta barca, temendo pela exposição cibernáutica, que atrai os necrófagos daquele mundo e deste, ou começam a pôr na moda a necessidade de se afastarem para não se sujarem com a porcaria que lhes atiram.
A imundície que vem ao de cima no tráfego de informação que a Internet e, mais recentemente, as redes sociais permitem, não é novidade. Desde sempre que o anonimato, ou a sensação de não ser apanhado, permitiu que alguns fossem valentes, uma vez que nunca necessitam de provar a sua valentia. O conforto da protecção oferecida pela distância física aos alvos, potencia o confronto e digitaliza o clássico agarrem-me se não vou-me a ele(a).
E isto permite qualquer tipo de assédio e de linchamento popular. Logo agora que o popular foi convertido em viral. E tal como os vírus que se multiplicam exponencialmente, também estas viroses nada trazem de saudável. Este caldo, cozinhado pela sociedade de utilizadores, envenena a rede social. E esta última, envenena a sociedade em geral, numa realimentação positiva, com efeitos tão negativos.
Espaços que poderiam ser usados para troca de informação e de ideias salutares, onde é possível concentrar-nos mais no conteúdo do que no autor, são um autêntico desperdício de largura de banda. O insulto e a falta de respeito tornam-se a norma, expulsando os mais válidos para outras praças.
Quem sabe filtrar o que lhes faz bem, sai de perto das fontes de poluição, tal como se faz no mundo real. Mas a realidade é que o Homem deixado sem controlo, comporta-se como o animal irracional que é. Endosso desde já as minhas desculpas a todos os outros animais irracionais que, mesmo não lendo, compreendem-nos o suficiente para de nós se afastarem...
2017-07-17
A lotaria do regloscópio
Não há inspecções verdadeiramente independentes, quando há possibilidade de escolha da entidade inspectora. Por mais que as normas exijam separação entre a produção e o lucro, não conheço entidade alguma que não exista para fazer dinheiro. Mesmo as que conseguem obter a designação de serem sem fins lucrativos, necessitam de dinheiro para viver. E se há instituições sem fins lucrativos que lucram muito mais do que as outras...
Este intróito já terá preparado o leitor para o que aí vem. Mas nem por isso. Não é este o tema central, apesar de associado. Discorro sobre a impossibilidade de indiscernibilidade entre entidades e, até mesmo, dos próprias centros de uma mesma entidade. Porque cada entidade é uma entidade. E cada centro é um centro. E, obviamente, cada inspector é um inspector.
Não quero dizer com isto que uns são corruptos e outros não. Vou aqui assumir que todos estão de boa fé neste ramo. Com a vontade de moralizar o sector e arrecadar mais algum, o Estado permitiu a abertura de novos centros. Aproveitou e acenou com uma nova área de inspecções: a categoria L. Entretanto descobriu-se que a categoria L não iria cobrir os motociclos de baixa cilindrada, deixando de parte a esmagadora maioria dos veículos de duas rodas. Arrisco até a dizer que deixou de lado os veículos de duas rodas mais poluentes, descuidados, degradados e alterados.
Enquanto as entidades esperam pelas novas inspecções, vão aproveitando a actualização extraordinária dos preços das inspecções, que tinham ficado durante anos congeladas, não se percebe bem porquê. Os inspectores aguardam pela formação e alguns foram tirar a carta de condução de categoria A (ficarão motards experientes num ápice, prontos a dominar as motas mais potentes e pesadas).
No meio da parafernália de equipamentos que cada centro de inspecções tem que possuir, entre os quais alguns que nunca ou muito raramente usa, existe um enigmático que dá pelo nome de regloscópio. Não é mais do que um sistema que permite trazer para perto a projecção dos faróis dos veículos, os quais foram projectados para projectar a luz bem mais longe. Tão simples é o seu princípio e tão complicada tem sido a sua utilização. Sem definição clara e quantificada de valores de aprovação e de reprovação, que variam de veículo para veículo, têm sido usados dependendo do bom senso e da perícia de cada inspector. Uma questão de sorte, que tanto choca com a questão da qualidade.
As novas definições estarão para ser aplicadas em breve, cabendo a cada cliente prestar atenção ao trabalho do inspector para confirmar se tudo foi feito correctamente. Como o cliente dificilmente será um especialista na matéria, terá que se contentar com a qualificação dos inspectores e das entidades para esse trabalho.
Agora multipliquem isto por todos os ensaios que passarão a ser feitos a apenas alguns dos veículos de duas rodas mais potentes. Isto para não falar nos acidentes e pequenas quedas dos visados, teremos muita sorte se tudo correr sem azares...
2016-03-02
A fé dos infiéis
Fico pasmado com a fé que, os que não acreditam em religião, têm no poder que a religião tem. Parecem acreditar que a palavra desta ou daquela religião deve coincidir com o pensamento destes infiéis. E deve ter um poder tal que leve os fiéis a cumpri-la à risca.
Metem na cabeça que, por exemplo, a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) deve impor o uso do preservativo aos seus fiéis, esquecendo que esta já lhes impõe uma moral que torna o preservativo dispensável. Anseiam por sinais de abertura que levem a ICAR a alinhar a sua teologia pela fé ateia. A tal fé que ignora todos os ensinamentos diferentes da sua visão do mundo.
Querem ser os salvadores destes pobres de espírito que seguem acefalamente as instruções religiosas esquecendo que, se as seguissem verdadeiramente, não necessitariam de mais salvadores, para além dos oficialmente reconhecidos.
2016-01-21
Leitura de casa-de-banho
Nunca apreciei leituras de casa-de-banho. Nem literal, nem figurativamente. Sempre gostei de reduzir ao mínimo o intervalo de tempo que vai do evacuar do intestino, até ao evacuar do autoclismo. Isto reduz não só o tempo lá gasto, como o tempo para espalhar perfume.
Obviamente, gostos não se discutem. E no que respeita a perfumes, nem costumo ter opiniões fortes e bem formadas. Mas cada um gasta tempo no que lhe der mais prazer, se tal for possível.
Acredito que o Homem esteja programado para se afastar de excrementos em geral, e dos de humanos em particular. Daí parecer-me natural o afastamento rápido dos locais onde se defeca. Pela quantidade de livros que existem nalgumas casa-de-banho, vejo que, por necessidade, ou por gosto, há quem passe bastante tempo sentado, a ler.
Cada um sabe do que mais aprecia ou, neste caso, cheira.
Este texto não serve de grande passatempo.
2015-08-23
Só conta o tamanho que está na cabeça
Apesar de nunca ter sido motivo de grande preocupação, confesso que, enquanto adolescente, me preocupava com o tamanho do meu pénis. Obviamente quando em repouso, dado que quando erecto, ficava orgulhoso da alteração substancial da dimensão e não havia comparação. Desconfio que seja um orgulho partilhado pelos adolescentes masculinos. Tal será o fascínio que a observação de tamanha transformação provoca.
E nem consigo imaginar o orgulho feminino, aquando da descoberta da capacidade de provocar tamanha transformação...
Presumo que as primeiras auto-avaliações ocorram quando confrontados com os corpos nus de outros machos. Nessa época, sentia-me desfavorecido, sem que isso me inibisse de me despir em frente de outrem, quando necessário. No entanto, atendendo que nessas situações não há necessidade de impressionar seja quem for, não me impressionava. Por um lado, em repouso, o tamanho é praticamente inútil. Por outro lado, em situações de balneário, o sangue tinha sido canalizado para outras zonas do corpo, onde é mais útil. Nem os duches frios me intimidam ou envergonham.
Depois do início da vida sexual (a dois), a confiança aumentou ainda mais. Não só porque tenho dedos mais pequenos e, ao mesmo tempo, mais competentes na produção do prazer feminino. E também porque o intervalo de tempo para a produção do tal prazer, sempre me pareceu absolutamente díspar relativamente à do prazer masculino. Passei a concentrar-me no tempo e na habilidade.
Quem estuda estes assuntos, sabe que o cerne da questão do prazer feminino está logo à entrada. Quer literalmente, quer figurativamente. Quer espacialmente, quer temporalmente. Um mau começo, que tanto pode ser demasiado apressado, como desastrado, impede um bom desenvolvimento e acaba mal.
As mulheres são ao mesmo tempo as melhores juízas e as piores auditoras. Avaliam como só elas sabem avaliar, mas só transmitem essa avaliação como só elas sabem transmitir: ou seja, objectivamente, pouco dizem. Ao não indicarem o que deve ser melhorado, privam-se e privam os parceiros das oportunidades de melhoria que daí poderiam vir.
Em compensação, não beliscam a auto-estima do parceiro, ainda que a própria não melhore com esta atitude. Obviamente farão as suas avaliações, dificilmente imparciais, de acordo com a experiência que tiverem. E deixam apenas transparecer as avaliações favoráveis. A não ser que tenham um castigo escondido para aplicar.
E como reconhecimento que o processo da excitação feminina é muito mais complexo do que o masculino, só agora se apresentou um medicamento como o análogo feminino do Sildenafil (mais conhecido comercialmente como Viagra). Porque esta excitação não é tão mecanizada e é muito mais mentalmente elaborada. E se uma mulher estiver convencida que o tamanho é fundamental, dificilmente se conseguirá tirar-lhe isso da cabeça...
2015-07-26
Desespero esperando
À espera de outrem, desencontram-nos. Procuramos noutro lugar o que não encontramos aqui e agora.
O desassossego da espera desconcentra-nos do mais importante. Eu. Tu. A não ser que esteja à espera de ti. E tu não me procures. Procuras ele. O outro. O desassossego do desencontro não permite a direcção correcta do foco.
Desisto de ti. De nós, logo de mim também. Parto em busca de um novo fado. Que não provoque enfado.
Prossegues a tua busca. Certamente melhor do que eu, saberás o que pretendes para ti. Para nós. Um nós repleto de afastamento. Cada um na sua extremidade, ainda que possamos passar próximo. Um caminho entre nós que não será mais percorrido.
Cabe ao passado guardar esses passos infrutíferos. E assim deve ficar.
2015-07-12
Desprendimento fatal
Não há admiração em não ter a certeza do teu sentimento. Quando o desejo é forte, encontra em todas as palavras a confirmação do que quer ver, ouvir e ler. E isso tolda a compreensão de tudo o que vejo, oiço e leio. A tentativa de compensar leva a ignorar os sinais, para não ser iludido pelo desejo. Tentando adormecer a excitação que me assalta, dizendo-lhe que nada de concreto se passa. Que se trata de uma miragem e não da fonte onde poderei matar esta sede que me consome.
É ridículo e desnecessário prender-te. Ridículo porque amarra alguma que eu inventasse, poderia prender-te a mim, contra a tua vontade. Desnecessário pois não faria sentido que ficasses presa a mim, sem perceberes e aceitares esse lugar como teu.
E ficas tão bem livre, como precisas e desejas...
Como um felídeo, a tua vontade é forte e impera. E não sentes qualquer impulso cego de obediência e fidelidade. Faz parte do teu fascínio e torna-te fatal.
Penso que terá sido num filme que ouvi uma personagem dizer a outra, à beira de se casar: o difícil não é dizer que sim a uma mulher para o resto da vida. É dizer que não a todas as outras.
E isso resume toda a dificuldade que os homens, mas não só, têm perante tamanho compromisso.
Sendo tu portadora desse halo que ofusca todas as outras, como posso dizer que sim a outra, enquanto não receber o teu não, conclusivamente categórico?
Sabendo isto, como pode ela ousar sequer tentar desalojar-te do meu coração?
2015-07-09
Requiem próprio
Porque vivemos numa cultura que enfrenta a morte de alguém que nos é próximo com tanto luto e dor?
Choramos por quem parte desta vida ou por nós próprios e pelo sentimento de perda que nos provoca?
Até as pessoas mais religiosas que acreditam que quando morremos, partimos para outra etapa na vida da nossa alma, parecem não encontrar nisso consolo suficiente. Se a falta de consolo for motivada por egoísmo ou pela negação do acontecimento, ainda haverá desculpa. Creio que poderá também resultar de uma fé abalável.
Falta-nos um espírito que aceite aquilo que é. Isto, independentemente da nossa concordância ou gosto. O sofrimento resulta da confrontação entre o que desejávamos que fosse e o que na realidade é. E o que é, por evidente força maior, em caso de morte, não pode ser alterado. E não adianta pensar como seria se tivesse sido de outra forma. Não foi.
Não vale a pena gastar recursos em cenários hipotéticos impossíveis de alcançar. Por maior que seja a nossa vontade.
E ainda que se trate de uma morte anunciada com prazo marcado, a dor não parece ser reduzida pela capacidade de planeamento. Talvez até piore pois há a tendência para imaginar como será.
A morte está anunciada desde o início para todos os seres vivos. Temos mais que tempo para nos preparar para o inevitável. Devemos aumentar o prazo naquilo que estiver ao nosso alcance e não nos martirizar com o resultado daquilo que de nós não depende.
Tão simples e tão difícil de implementar. Quando a altura chegar, foquemo-nos nos sentimentos positivos.
Não deixemos o nosso egoísmo vencer e aproveitemos todos os momentos para conviver com os que nos são próximos. E com os outros também. Depois, não adiantará chorar. Só se for para desabafar.
2015-07-02
Adiamento temporário
Como pudeste pedir-me que te confessasse o inconfessável? Nada me fez prever.
Que fazes após tal confissão? Confesso que nada esperava que fizesses.
Ficas excitada por seres o objecto desta prosa ardente? O ego promete.
Relembras o passado com emoção? Emociono-me só a pensar nisso.
Acende-se o desejo já esquecido? Uma fagulha quase apagada.
Retiras o projecto do fundo da gaveta? Um esboço a suplicar retoques.
Podemos adiar o coração? Não devemos, mas podemos.
Por quanto tempo? Não sabemos.
Que fazes após tal confissão? Confesso que nada esperava que fizesses.
Ficas excitada por seres o objecto desta prosa ardente? O ego promete.
Relembras o passado com emoção? Emociono-me só a pensar nisso.
Acende-se o desejo já esquecido? Uma fagulha quase apagada.
Retiras o projecto do fundo da gaveta? Um esboço a suplicar retoques.
Podemos adiar o coração? Não devemos, mas podemos.
Por quanto tempo? Não sabemos.
2015-06-16
Objectivamente inalcançável
Uma meta inalcançável.
Um projecto inacabável.
Um combate amável.
Um plano descartável.
Uma rota intraçável.
Um destino contornável.
Um combate abandonável.
Um projéctil desviável.
Uma contenda abalável.
Um casamento inconsumável.
Um foco inconcentrável.
Uma parceria inaceitável.
Um investimento inviável.
Um percurso aceitável?
Um projecto inacabável.
Um combate amável.
Um plano descartável.
Uma rota intraçável.
Um destino contornável.
Um combate abandonável.
Um projéctil desviável.
Uma contenda abalável.
Um casamento inconsumável.
Um foco inconcentrável.
Uma parceria inaceitável.
Um investimento inviável.
Um percurso aceitável?
2015-06-14
Como as massas
Moldamos as redes sociais com os nossos gostos e acções. E nisso não há mal algum.
Subrepticiamente, elas moldam a apresentação de conteúdos às nossas expectativas. E isto não é novidade. Daí a massificação noutras vertentes das nossas vidas.
Os humanos carecem de atenção e de aceitação. Estar contra a corrente é desconfortável e consome demasiada energia. Os algoritmos tendem a dar-nos o que pedimos e desejamos. Naturalmente sugerem-nos o que já preferimos e ocultam-nos o que não gostamos ou nem sequer conhecemos. Reforçam-nos as convicções e não nos expõem ao contraditório. Agrupam-nos por interesses e gostos. Separam-nos dos outros e tentam reforçar os laços entre nós.
Se só por acção dos outros meios de informação e das redes humanas este efeito de massificação já era notável, imaginem como passará a ser dentro de pouco tempo com esta manipulação cada vez mais omnipresente e omnisciente...
Subrepticiamente, elas moldam a apresentação de conteúdos às nossas expectativas. E isto não é novidade. Daí a massificação noutras vertentes das nossas vidas.
Os humanos carecem de atenção e de aceitação. Estar contra a corrente é desconfortável e consome demasiada energia. Os algoritmos tendem a dar-nos o que pedimos e desejamos. Naturalmente sugerem-nos o que já preferimos e ocultam-nos o que não gostamos ou nem sequer conhecemos. Reforçam-nos as convicções e não nos expõem ao contraditório. Agrupam-nos por interesses e gostos. Separam-nos dos outros e tentam reforçar os laços entre nós.
Se só por acção dos outros meios de informação e das redes humanas este efeito de massificação já era notável, imaginem como passará a ser dentro de pouco tempo com esta manipulação cada vez mais omnipresente e omnisciente...
2015-05-24
O conforto (dos) ordinário(s)
Uma coisa que habitualmente conforta o mais ordinário dos mortais, é o facto de poder distinguir claramente os bons dos maus. Isto facilita o exercício mental de etiquetar o outro. E favorece a separação entre bons (ele próprio e os respectivos) e os maus (todos os outros). Assim, quando observa comportamentos que reprova, gosta de identificar e associar aos outros, características que possibilitem a generalização. A generalização é uma forma de facilitar o pensamento, diminuindo o grau de abstracção.
Outro facto que costuma confortar estes sujeitos é, havendo uma ausência de regras morais, seguir uma regra mais simples: só prevaricar quando julgar escapar impune.
Apesar da dificuldade que a realidade possa causar ao não permitir maniqueísmos, talvez a identificação com as pessoas e com a situação venha em auxílio destes ordinários, reconfortando-os. Se ele estivesse lá, teria feito a mesma coisa.
Vídeo do Correio da Manhã
Outro facto que costuma confortar estes sujeitos é, havendo uma ausência de regras morais, seguir uma regra mais simples: só prevaricar quando julgar escapar impune.
Apesar da dificuldade que a realidade possa causar ao não permitir maniqueísmos, talvez a identificação com as pessoas e com a situação venha em auxílio destes ordinários, reconfortando-os. Se ele estivesse lá, teria feito a mesma coisa.
Vídeo do Correio da Manhã
2015-05-18
A bela em cima do monstro
Aprecio a forma desajeitada como a modelo se sentou para a foto. Agarrou-se ao depósito, enquanto tenta manter as pernas juntas, de forma pudica. Pudica, pois aquele vestido curto espera que aqueles joelhos se afastem, para mostrar à objectiva da câmara a roupa interior inferior da modelo. Inferior apenas na localização, certamente.
Desajeitada, pois não é assim que se senta quem quiser domar toda a potência daquela máquina. Não é um cavalo que uma dama possa montar, mantendo ambas as pernas dependuradas para o mesmo lado. Apenas um dos sapatos de salto alto encontrou o poisa-pés correcto para se apoiar. O outro ficou pendurado. O do pendura fica demasiado afastado.
Independentemente da posição instável, e até talvez por ela mesma, é o sorriso divertido da bela que mais cativa. Ela que se segura para não cair, ainda que o monstro esteja imóvel.
Como é da praxe, numa máquina de desejo italiana, a cor do monstro só podia ser vermelha viva.
Devem agora compreender qual seria o monstro que eu desejo apresentar agora à minha bela...
(imagem da revista Auto Foco aquando da apresentação da Ducati Monster 1200 S no Salão de Milão de 2013)
Desajeitada, pois não é assim que se senta quem quiser domar toda a potência daquela máquina. Não é um cavalo que uma dama possa montar, mantendo ambas as pernas dependuradas para o mesmo lado. Apenas um dos sapatos de salto alto encontrou o poisa-pés correcto para se apoiar. O outro ficou pendurado. O do pendura fica demasiado afastado.
Independentemente da posição instável, e até talvez por ela mesma, é o sorriso divertido da bela que mais cativa. Ela que se segura para não cair, ainda que o monstro esteja imóvel.
Como é da praxe, numa máquina de desejo italiana, a cor do monstro só podia ser vermelha viva.
Devem agora compreender qual seria o monstro que eu desejo apresentar agora à minha bela...
(imagem da revista Auto Foco aquando da apresentação da Ducati Monster 1200 S no Salão de Milão de 2013)
2015-04-30
Quando me apagar
Independentemente do mérito da imortalidade da obra de cada um, interrogo-me o que acontecerá a tudo aquilo que deixarmos publicado na Internet antes de morrermos realmente. Virtualmente poderá manter-se online durante muito mais tempo. Quem terá acesso, posterior ao nosso desaparecimento, às contas nos blogs, redes sociais, etc. que temos espalhadas pelo ciberespaço? Quem conseguirá decifrar as palavras-passe que garantem a segurança contra a utilização das nossas contas por terceiros? E quereremos que as decifrem? ou que as liquidem de vez?
Para além disso, há os contactos virtuais que se estabelecem. E muitos nunca passam disso mesmo. De virtuais. Como poderão distinguir a ausência por desinteresse, ou por outros interesses, da ausência por motivos de força maior? Por razões que não dão hipótese de contestação?
Quem se aperceberá deste grande apagão? Quais dos amigos reais conhecem plenamente a dimensão virtual deste eu? Do meu autor? Haverá possibilidade de deixar em testamento a nossa dimensão virtual? Ou, nem que seja virtualmente, haverá lugar a enterro?
Lápide alguma marcará este final.
Para além disso, há os contactos virtuais que se estabelecem. E muitos nunca passam disso mesmo. De virtuais. Como poderão distinguir a ausência por desinteresse, ou por outros interesses, da ausência por motivos de força maior? Por razões que não dão hipótese de contestação?
Quem se aperceberá deste grande apagão? Quais dos amigos reais conhecem plenamente a dimensão virtual deste eu? Do meu autor? Haverá possibilidade de deixar em testamento a nossa dimensão virtual? Ou, nem que seja virtualmente, haverá lugar a enterro?
Lápide alguma marcará este final.
Inconfessável
Calo o que sinto, pois não o posso partilhar. Nem contigo, nem com outra, o que ainda está em brasa dentro do meu coração. Sei que posso contar contigo, pois nada me perguntarás. Talvez com medo de reacenderes este vulcão adormecido. Cuja fúria já vislumbraste. Cujo poder já desejaste. E não mais o quererás, de tal forma incontrolável e ilógico ele surge.
De que adianta tanto poder se não for controlável? Só nos poderá magoar, se não nos deixar felizes para sempre. E sempre, é o tempo que este sentimento amordaçado parece ter. E se, para sempre, tiver que ficar no meu peito prisioneiro, assim será. A última coisa que desejo é voltar a magoar-te.
Magoar-me não me assusta. Por isso não fujo de ti a sete pés. Já no passado fugi e de nada me serviu.
Tenho que domar o indomável.
Tive que confessar o inconfessável.
De que adianta tanto poder se não for controlável? Só nos poderá magoar, se não nos deixar felizes para sempre. E sempre, é o tempo que este sentimento amordaçado parece ter. E se, para sempre, tiver que ficar no meu peito prisioneiro, assim será. A última coisa que desejo é voltar a magoar-te.
Magoar-me não me assusta. Por isso não fujo de ti a sete pés. Já no passado fugi e de nada me serviu.
Tenho que domar o indomável.
Tive que confessar o inconfessável.
2015-04-29
Dadas as listas de base
As bases de dados estão cada vez mais presentes nas nossas vidas. Aceitamos quase sem pensar em ceder os nossos dados, que ficarão compilados em listas.
Talvez por isso abracemos com agrado a constituição de novas listas. Torcemos o nariz às listas VIP, talvez por temermos ficar excluídos. Mas a constituição de listas que marquem terceiros para nossa conveniência, é recebida de braços abertos. Independentemente da Constituição.
Hoje pugnamos pela lista pública dos pedófilos, para salvaguardar as nossas crianças.
Amanhã pugnaremos pela lista pública dos homicidas, para salvaguardar as nossas vidas.
Depois, certamente, pela lista pública dos gatunos, para salvaguardar os nossos bens materiais.
Publique-se!
Talvez por isso abracemos com agrado a constituição de novas listas. Torcemos o nariz às listas VIP, talvez por temermos ficar excluídos. Mas a constituição de listas que marquem terceiros para nossa conveniência, é recebida de braços abertos. Independentemente da Constituição.
Hoje pugnamos pela lista pública dos pedófilos, para salvaguardar as nossas crianças.
Amanhã pugnaremos pela lista pública dos homicidas, para salvaguardar as nossas vidas.
Depois, certamente, pela lista pública dos gatunos, para salvaguardar os nossos bens materiais.
Publique-se!
Subscrever:
Mensagens (Atom)
