2026-10-06

Alimento o desejo

Nunca compreendi o móbil para a violação. Nem sequer o cumprimento de uma obrigação indesejada. Posso compreender um desejo indesejado. Não mais do que isso. E isso não é para aqui chamado. Talvez porque o (meu) desejo, deseja o desejo alheio. Alimenta-se dele. Chega a alhear-se das consequências para crescer. Fortalece-se com a realimentação positiva, correndo o risco de atingir a saturação. O que não terá um fim dramático, desde que se renove o desejo. Um desejo renovado, pede mais renovação...

More wireless

Cada vez estão mais na moda as coisas wireless. Porque tudo o que não tem fio, provoca menos confusão. Evita-se aquele emaranhado de fios e respectivos nós, quase cegos, de quem não vê como desembaraçá-los. Fazem publicidade à ausência de fios de comunicação. Para a alimentação, continuam a fazer muita falta, apesar do aumento da indução.

Quem prescinde desta ligação invisível com o resto do mundo?

Curiosamente, vendem-se fios para prender os wireless headphones.

E quem nunca usou um telefone fixo, para telefonar para um telemóvel em paradeiro incerto?...

Estórias de embalar

Há muitas estórias que se contam para embalar a consciência. Para adormecê-la, deixando o contador encontrar a paz. São estórias que muita falta fazem a quem tem uma consciência, qual grilo falante, capaz de tirar o sono ao seu portador. E todos sabemos como os grilos sabem ser estridentes.

Para gatunos, há o ditado "a ocasião faz o ladrão".  Na realidade o ladrão já está feito. A ocasião apenas o testa. A ocasião apenas lhe dá a oportunidade de roubar, com um risco baixo de ser apanhado. Mas esta parte não adormece a consciência.

Na mesma categoria, existe o ladrão que rouba a outro ladrão, tendo cem anos de perdão. É uma espécie de atenuante que entorpece a consciência. Como se uma coisa errada, feita a um ladrão, pudesse ser justa, só porque ele roubou. Estava mesmo a merecê-las, diria o vingador envergonhado.

Quando alguém se apropria de algo que não devia, desculpa-se sempre que se não fosse ele, outro o faria. Ouve-se muito sobre isso quando se encontram coisas perdidas na rua. Na caça e na pesca, quando se matam espécimes que ainda não atingiram o tamanho adequado. Na agricultura, para se invadir propriedade privada, não cercada. As espécies botânicas nem fogem, nem se defendem.

Quando chega a hora de pagar os devidos impostos, só não lhes foge quem não pode. E quem pode, argumenta que o Estado emprega mal o dinheiro que entregam à sua guarda. Para isso, mais guardá-lo, bem guardado. Mais vale nesta gaveta, do que engavetá-lo no (péssimo) Estado.

Quando as notícias não agradam, não se quer ver as notícias porque são só desgraças. Ao contrário da avestruz que encosta a cabeça no solo, para melhor ouvir o que se passa à sua volta. É preferível alhear-se do que se passa à volta, sem nunca perder a oportunidade de lamentar porque as coisas não melhoram, esquecendo a própria ausência de contribuição.

Os infiéis podem contar a si mesmos que a relação já não estava bem, que faltava algo que se tinha perdido, que se tinha sentido que havia alguma coisa por um terceiro. A única coisa que aparentemente ninguém tinha sentido, seria a vontade de falar com o parceiro, terminando a relação, em vez da estocada fatal, à traição.

Actualmente há uma falta de empatia atroz, resultado da demonização do outro, que nem merece viver, quanto mais existir e ter direitos que parecem com os nossos colidir...